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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ao menino dos olhos


O moço a devolveu o sorriso! Ela estava acompanhada da solidão quando ele se aproximou. A moça fugia de si e temia encontrar os olhos do rapaz, mas ele a viu. Foi assentar-se em um cantinho sem luz para que a alma dela não transparecesse o fardo. Mas a luz dos olhos do moço a tirou da escuridão. Roubou-lhe a companhia. O moço não sabe que ela tinha medo do encontro. Os encontros já haviam usurpado irresponsavelmente uma boa parte de quem ela se prestava a ser. Uma saudação e tudo se rompeu, a solidão a deixou só com o menino dos seus olhos. Estiveram sem localização. Ela estava em tudo, dissolvia-se no universo enquanto sentia timidamente o desejo do moço a violentar. Estiveram outras vezes sós! Do primeiro beijo ao surto, do último sorriso à separação. Sempre estiveram juntos, apenas não sabiam.
Foi por causa do moço que ela reaprendeu a sorrir sem amargura! A cantar a dor, a chorar a flor, a sorrir o amor. A vida lhe fora devolvida nos toques, nas fusões, nos diálogos, nas canções, na poesia, no afago. A moça nunca quis ser entendida, ela já sabia como Lispector que entender é não entender. Ela apenas desejava ser sentida dia e noite. Queria ser entregue, entrega, queria deixar de ser e renascer nele. O moço não se jogou no tempo, não quis a espera, evitou as demoras, partiu eternizando. Deixou com a moça o sorriso contra a tortura da dor, o tormento da saudade e os dias tristonhos e vazios!
Ficou a marca indelével da unicidade de sua(s) vida(s). Tudo e nada se dissipam com o passar dos dias. Quando ela se oferece gratuitamente às lembranças, compreende do que mais gosta no moço: a certeza de que sua inconstância lhe permitirá mais dias com a solidão, sem noites! Dias de sol e de liberdade, dias de silêncio e sobriedade, dias sem fim em sua companhia, pois o moço se foi, mas se esqueceu de sair! Eles começaram colocando um ponto final para tornar tudo novo de novo!